segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Acordei

 Eram 06:20.

acordei entre nuvens. tantas que achei que nem tinha amanhecido.

tantas que tive a certeza que o céu ia chorar.

errei.

quem chorou fui eu.

de saudade.

de dor.

de gratidão.

chorei pelas horas passadas.

pelas memórias plantadas.

pelo tempo. O nublado e o consumido.

eram 06:20.

acordei.



quarta-feira, 8 de julho de 2020

Gabi

“Oi. Qual seu nome?
Fumiga.
Ah! E você, qual é o seu nome?
Ota.
Ota?
Ota fumiga."
 Essa era a historinha preferida de Gabi. Ela contava e ria uma risada solta, leve. Era uma formiguinha incansável. Três empregos, seis filhos, muitos maços de cigarro, rg goiano e um balaio de história para contar.
Baixinha, estilo “mingon”, cabelos prateados, olhos grandes e um coração maior ainda. Tinha receita de tudo para tudo. Bicho de pé, bicheira, dor de dente, piolho, dor no estômago, nas costas, na alma e um biscoito de queijo que fazia o olho crescer mais que o estômago. Uma segunda mãe. Sua risada ecoa gostoso em minha memória. Gabi era luz. Aquecia o ambiente, irradiava sabedoria. Tive sorte.
 Em um outubro chuvoso de 1996 recebemos a notícia que um câncer apareceu em seus ossos. Deu frio no peito, medo, tremedeira. Calma que tudo tem jeito, ela dizia. Com o andar da carruagem as abóboras se ajeitam e ajeitaram. Não como eu queria, mas como era para ser. 
Fazem quinze anos que ela atravessou para a terceira margem. Viajou fora do combinado.
Partiu levando a risada solta, as receitas de bruxa, um monte de maravilhas e as abóboras.
Nos despedimos dela lá no porto de nome esquisito e vimos com os olhos cheios d'água a barca singrar o mar do infinito.
 "As abóboras se ajeitam com o andar da carruagem". Essa frase soa como mantra em meus momentos de desespero.
É Gabi, a carruagem te levou para longe com todas as abóboras. Você podia ter deixado algumas comigo para eu lembrar que jeito é esse e que a morte é coisa sem tamanho e sem dono.
O que acontece dentro do tempo quando a gente morre Gabi?


Abandono

Carlos, olha para mim. 
A água acabou, 
o fogo queimou,
 a luz apagou,
 o ônibus quebrou,
 a empresa fechou,
 a árvore caiu,
 o sol esfriou, 
a lua escureceu,
 cadê você?
o carro enguiçou,
 o padeiro fugiu,
 o suor secou,
 a alma encarnou,
 a estrela caiu,
 a criança chorou,
 o peito murchou,
 a panela ferveu,
para onde você foi?
 o dinheiro sumiu,
 o barraco molhou,
 a comida estragou e você, Carlos
 beijou outra mulher.
Ah,Carlos.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O armário do esquecimento



  • Você vai arrumar isso mesmo, tem certeza?
  • Certeza não. Tenho necessidade.
  • E por onde você vai começar?
  • Pelo início.

    Toda casa, ou quase todas tem um móvel ou cantinho de abandonos. Velharias, coisas quebradas, fotos velhas, pilhas estragadas, pregos tortos, brinquedos cansados , vergonhas e saudade .

    O meu armário de abandonos tem tudo isso , mais a poeira, o calor da lembrança , o aconchego de reinar sozinha  esse mundo rico e o prazer de me trancar dentro dele, meu pote de tesouros.

     Muito mais que guardar as não utilidades, meu armário guarda as Adrianas que fui. Guarda também minhas quase existências e um rosário de contas de contos sem fim e minhas acalentadas memórias, preciosidades puras.

     A voz de Milton, os poemas de Pessoa, as prosas de Urbano, o abraço farto de Táta, o colo da Má, a molecagem de Teresa, o cuidado de Cota, a elegância magra de Jorge, a risada solta da Gabi, as rapaduras proibidas de Hellé, as tardes ensolaradas de minha infância, o olhar de amor de meus nove cachorros, a força do cerrado, o gramado do congresso, o violão na cúpula do Senado, a fogueirinha de papel atrás da igreja da D’Ajuda, o pique-pega debaixo do bloco, a delicadeza de Gil, Caetano, Alceu, Guimarães, a mesada transformada em picolés, a gargalhada no cemitério, eixos e tesourinhas aprumando meus rumos.
Meu armário, que agora batizo de Esquecimentos ,não abriga o que não cabe mais nas lembranças. Abriga ouro puro que, por capricho ou descuido fica escondido só para mim. Quando a vontade aperta vou lá, abro as portas e danço por horas e horas egoísta e satisfeita lembrando de mim.

Revoar

Me pediram para escolher um foto e escrever um texto. Esse pedido  é ousado, de natureza delicada, requer tempo, horas de lembrança, negociação entre as partes e muita paciência para lidar com a verdade dos anos.
Mexer com passados requer um ritual próprio, respiração pausada, mãos limpas e coração aberto. 
Inspirei, expirei, deixei a calma chegar para encontrar a chave das gavetas de dentro, as que  guardamos nossos infinitos, e com a maior das delicadezas abri.
No hiato milimétrico de minha expiração, a fenda de luz entrou gaveta adentro e uma revoada de memórias escapou sem que eu conseguisse pegar umazinha sequer. Confesso que nem insisti. Sorvi aquele momento , ou aqueles momentos coloridos, marcantes, estranhos e cheios de mim. Revoei com eles. 
Aos quatro anos emburrada na varanda da casa de minha avó, aos sete no parquinho da minha quadra, aos dez brincando na escola, aos doze com vergonha de ter virado mocinha, aos dezessete certa que existe para sempre, aos vinte e um o primeiro namorado sério, aos vinte e quatro a primeira filha( isso foi bem sério), aos vinte e nove o segundo filho( seríssimo!) e por pura preguiça de escrever outros tantos dou num salto quântico e chego aos cinquenta realizando sonhos da juventude , dou mais uns pulinhos até os atuais cinquenta e quatro, sem saber o que isso quer dizer e sem vontade de achar significados. 
As tantas revoadas que sorvi dizem por mim e para mim.
Sou aquilo tudo e um bocadinho disso também. 
Em construção. O texto e eu.

Adriana Dornellas
Julho/2020

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Reflexões de uma Deusa

Quando me ofereci pra ajudar na missão eu não imaginava a roubada que estava me metendo. Explico.
De tempos em tempos uma porrada de gente é escolhida para espalhar o pólen das existências pelo Cosmos afora. Coisa de civilizações muito antigas, que já passaram por vários mundinhos, já fizeram as lições de casa e agora estão sentadinhas na janelinha só curtindo a paisagem e se achando no direito de ditar regras evolutivas para a galera que está vindo atrás. Os mais otimistas dizem que isso é pura generosidade. Que seja.
Acontece que, às vezes, falta pessoal, mão de obra e sobra para o primeiro escalão cobrir os buracos. Incrível né não? A crise bateu por aqui tambem. Santa economia cósmica!
 Pois bem .
Você escolheu ser Deusa não escolheu? Então segure essa.
Após inúmeras reuniões, acertos, preparos, cafezinhos e sessões de Netflix foi acordada que a data seria 20 de fevereiro de 1966, precisamente às 21:30. Houve um certo desconforto em relação ao horário, mas ajeita aqui, espreme ali, agrada acolá e todos aquiesceram.
Depois das tais 40 semanas de espera é chegada a hora. Primeiro obstáculo: sair de dentro( desculpe o pleonasmo professor Pasquale). Confesso que bateu uma preguiça estratosférica. A essa altura da existência ter que fazer força? Ah nem...
Primeiro porque tinha que romper a tal placenta, ser apertada pelos músculos e se tiver sorte, sair por um canal apertado. Eu não tive essa sorte. Fui tirada à minha revelia pela barriga daquela que viria a ser minha mãe. Coitada! Coitadas!
Pergunta: porque tem que ser dessa forma melequenta, estressante e invasiva a chegada a esse planetinha? Afff!
Passados os minutos infernais desse momento, você sente quilos de mãos te segurando e mexendo sem parar em você, até que o momento mais doído chega como um coroamento: a luz. Não qualquer luz meu querido, aquela luz fria, branca e mal amada das salas de cirurgia típicas do mundo humano. É mole ou quer mais?
Por fim te deixam quieto num berço e você começa a se perguntar : aonde eu estou, que gente louca é essa, o que estou fazendo aqui?
A resposta não veio assim de pronto.
Há 52 anos estou no rastro dela.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Fevereiro

Escute só, isto é muito sério.
Anda, escuta que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leo me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?
Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.
O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?
Então. Acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah é, eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você. A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.
Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas da nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.
[suspiro]
O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos perfeitos. A esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração. Metade medo, metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo. Há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que agora exista, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.
De que lado você está, eu não me importo. De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.
É… é impossível viver no país de Deus, isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível não.
Escuta, isso é sério.
Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.
Portanto, escute.
Isto é muito sério.
Isto é uma proposta aos trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem.
Fevereiro
Matilde Campilho